Isac Venancio

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A Fazenda – Parte 02.

In [...] on 08/25/2011 at 4:07 PM

– Você sabe do que eu gosto pela manhã…

Fiquei te observando por um bom tempo enquanto eu dizia isso de uma forma misteriosamente provocante. Reviravas o corpo pelo lençol, como se quisesse ser parte dele para sempre. Fez cara de quem não prestou atenção, de quem queria dormir mais um pouco sem ser afortunado por nada.

E eu ali, na minha mais intacta e pura paciência. Afinal, eu lhe conhecia muito bem, e o revirar de seu corpo de um lado para outro a meu ver era uma demonstração de aceitação: o prazer de ser convidado, logo pela manhã, a participar de algo tão prazeroso e autêntico que era o nosso sexo.

Tentei por um momento apostar que não sentiria aquela mesma sensação de segurança e prazer enquanto eu subia em cima de você, mas oh, como eu era facilmente corrompido pelas minhas ignorantes dúvidas! Estar em cima de você e me manter caloroso entre seus braços era como observar da mais alta das montanhas o início e o fim do Apocalipse por todo resto do Planeta, enquanto eu estava num lugar seguro, certo de que iria sobreviver de todos os problemas.

Talvez seja por isso que o orgasmo é algo tão rápido, pois creio eu que já teria morrido precocemente se o que eu senti conectado junto a ti durasse por longas horas.

Com uma caneca na mão acrescida de bastante café, observei o vento levar as cinzas de nossa fogueira noite passada. O sol desabrochava rápido, pois a lua já tinha contado, antes de ir trabalhar no hemisfério vizinho, tudo o que ocorrera noite passada, o que fez com que a imensa bola de fogo que daqui debaixo eu observava chegasse tão veloz. Veio então quente a estrela da manhã, irradiando energia e dando vivacidade as cores da floresta diante de mim.

 Senti um leve susto ao perceber que algo dominava minha orelha. Senti que era uma flor, acompanhada do teu leve sussurrar:

 – Bom dia… – Você me disse.

 Olhei então a flor, aquela mesma flor, comum de se achar em todo pequeno jardim, de senhoras aposentadas que se cansam de falar com as pessoas, e decidem dialogar com as plantas. Flor esta que não era pega para fazer perfume nenhum, e mesmo assim, era para mim a mais bela de todas.

 – Essa foi a primeira flor que você me deu, no dia em que nos conhecemos.

 Ficou espantado, pois eu ainda me lembrava de tudo como se tivesse acontecido há meia hora. Entendi seu silêncio, pois junto a ele veio um abraço forte, e um beijo mais forte do que a força de três dos teus fortes abraços.

 –

 O rio foi perdendo sua graça. Aliás, toda a natureza só tinha graça porque a magnitude da tua beleza a decorava.

 Fumei um último cigarro enquanto você se aprontava, e então como se quem quisesse ter uma última sensação de aventura, joguei um punhado de água em cima da tua roupa seca, enquanto me preparei para correr. Veio logo atrás, com cara de que ia aprontar comigo, e eu sabia que se realmente corresse, não haveria reza que faria você me alcançar.

 Então decidi fazer de conta que estava cansado. Afinal, eu queria ser realmente pego, e antes que pudesse se vingar, eu já estava mais uma vez com os meus lábios de encontro aos teus.

 Passamos para pegar as mochilas. A casa, ainda bem, já estava toda arrumada. Jogamos tudo nos bancos de trás e subimos em cima do carro sem realmente saber se ele seria capaz de nos agüentar. O sol já não ardia mais nos olhos, e então dividimos um pouco de nicotina, passando aqueles últimos cinco minutos no mais puro e belo dos silêncios que havia.

 – Vamos? – Você perguntou.

– Oui, Mr. D! – Respondi, rindo atoa com a espontânea rima.

Por um momento, achei chata a idéia de retornar. Por um momento, achei chato ver os pingos amarelos no meio da pista se transformando em amarelas listras. Por um momento, achei chato ser ofuscado novamente pelo brilho dos semáforos, e só não dei importância a tudo aquilo pois, do meu lado esquerdo, estava você dirigindo e me levando de volta à realidade.

E então, ao dormir, imaginei que a realidade era uma coisa realmente chata, e pensei por um leve momento que esses dois dias na fazenda só poderiam ser frutos da minha cabeça, tão bons eram eles, sem nem saber se eu era merecedor de tudo o que passei junto a você.

Parei de confabular coisas, e observei quietinho os seus olhos se fechando vagarosamente, o seu respirar denunciando que já tinhas alcançado o sono. Foi como um close de uma câmera cinematográfica, que percorria lentamente os cobertores até fechar o quadro no teu rosto, agora em paz.

Um momento inesquecível, definitivamente.

Mas eu sabia que, para mim, não era necessário uma fazenda, uma lua, um sol, uns gravetos crepitando no fogo, uns uivos da floresta, uns fiapos de manga, um céu escarlate…

A única coisa que eu precisava para ser feliz era aquela que estava ao meu lado na cama, a que eu sempre olhava antes de dormir.

Você.

 

FIM