Isac Venancio

SOBRE O MEDO

In Uncategorized on 10/27/2011 at 3:03 PM

Nunca fui desses, mas de repente, senti medo.
Medo de sorrir. Afinal, não quero mostrar que sou forte: a inveja existe.
Medo de chorar. Afinal, não quero parecer fraco.
Medo de ser imparcial. Afinal, vou deixar de sorrir quando devo sorrir, e de chorar quando assim for necessário.

Medo de me expôr pela metade, deixar que me julguem pela parte que deixei à mostra. Afinal, desisti de me entregar por completo.
Medo de que me virem as costas e me chamem de injusto, quando fui na verdade a pessoa mais justa. Afinal, desisti de descobrir quem tá certo, e quem está errado.

Medo de que o próximo cara para quem eu diria “eu te amo” passe na minha frente e eu, cego, não perceba. Por ora, desisti de amar.

Medo da temperatura alta. Afinal, meu coração pode evaporar.
Medo da baixa temperatura. Desse jeito, meu coração petrifica. De vez.

Medo de ser levado pelo ritmo do mundo sem ter tempo de olhar para trás, de saber se o que perdi foi vantajoso em detrimento do que ganhei.
Medo de ficar parado enquanto o mundo dança, pois sabe lá se vão haver mãos para me puxar e dizer “Vem, o mundo continua girando!”

Medo de que me digam “Você é péssimo!”
De que me digam que sou péssimo filho;
De que me digam que sou um péssimo amigo;
De que me digam que sou um péssimo namorado.

Para que depois disso sobre apenas lágrimas e soluços de quem julgou sem antes se julgar.

Se vou amar, odiar, desmerecer, viver, morrer, ser feliz ou triste, tudo ou nada, não sei.
O que sei é que preciso me re-encontrar.

Pois nesse medo todo, acredito que me perdi.

O CONTO DOS TRÊS PRÍNCIPES

In Uncategorized on 09/28/2011 at 1:09 PM

Eis que eu repousava em cima de uma grande torre de mármore metade negra e metade branca, a esperar pacientemente por alguém que me salvasse da solidão, quando uma voz dentro de mim clamou por minha paciência.

“Os três príncipes estão chegando, e é certo que um deles te livrará do abandono desta torre.”

Foi então que eu sentei, com as pernas livres, balançadas pelo forte vento, a esperar pela chegada da solução para o meu abandono.

Um horizonte verde estendia-se na minha frente. O sol ainda estava quente, mas eu sabia que, ao final do dia, estaria a salvo.

___

Veio da esquerda o Primeiro Príncipe, montado num imponente unicórnio branco, quando de repente uma chuva torrencial tomou conta da paisagem. As nuvens estavam abaixo da torre, o que cobria a passagem que impossibilitou-me de ver a chegada de meu salvador número um. Esperei pacientemente enquanto ouvia cada vez mais forte o casco do quadrúpede que, ao se aproximar da torre, revelou ser um jumento de cor avermelhada: a chuva levou embora a tintura branca por cima de seus pêlos, levando também consigo o falso chifre de um unicórnio que, na verdade, nunca tinha existido.

O Primeiro Príncipe pareceu não se importar com aquilo e arrombou o primeiro portão da torre, subindo demoradamente pelas escadas. Chegou cansado e ainda faltava uma segunda e última porta que, de longe, eu percebi que ele não conseguiria abrir.

– Pode ir embora. – Disse a ele sorrindo.

– Por quê?  – Perguntou-me.

– Porque a mentira pode destruir uma relação, e pelo sucesso pleno de minha liberdade, posso sentar-me novamente onde eu estava, e esperar mais um pouco.

Ele me olhou atento, com olhos de quem tentou rapidamente compreender minha enigmática sentença.

Nos entrelaçamos num beijo envolvente de despedida, quando o Primeiro Príncipe enfiou suas mãos por entre as grades para roubar uma parte de mim. E então levou consigo a minha Confiança, enquanto voltava a subir meio cabisbaixo em cima de seu cavalo vermelho para ir embora.

“Espero um dia receber de volta aquilo que ele me tomou hoje.” – Pensei, antes de me sentar para esperar pela vinda de outro príncipe.

___

Da direita, o Segundo Príncipe surgiu astuto pelos céus, coberto pela sombra de uma asa delta, e então vi que ele decidiu pousar em terra, para em seguida adentrar com bravura por entre a torre, com as asas presas atrás de suas costas. O salvador número dois achou que a subida seria fácil. Não obstante, a ponte revelou-se traiçoeira, e cada degrau avante do Príncipe destruiu um degrau que já havia sido pisado.

– Vim para te salvar, meu pequeno! – Disse ele a mim enquanto farpas de fogo saltavam de sua espada, denunciando que a segunda e última porta tinha sido arrombada com ferocidade.

– Tire a asa delta de suas costas e me beije!

– Tirar as asas? Não posso!

– Por que não?

– Pois elas me protegem!

Pensei um pouco sobre suas palavras rápidas e sua insegurança, e decidi deixar que ele também fosse embora.

– Mas porque tenho de ir embora?

– Há mistérios nesse mundo que você ainda não soube desvendar…

E ele continuou em silêncio.

– Me chamou de pequeno quando, na verdade, o pequeno és tu.

O Segundo Príncipe fez que ia chorar, quando eu interrompi suas lágrimas com um doce beijo.

– Neste mundo, meu Príncipe, todos são pequenos. Entretanto, todos têm a brilhante oportunidade de crescer… Agora ponha suas asas para funcionar e voe!

O Segundo Príncipe foi embora voando por entre as nuvens, enquanto eu fiquei a pensar que brevemente aquele menino seria um grande homem, no dia em que ele for capaz de pisar os pés no chão firmemente sem ajuda de suas asas. Mas não ousaria dizer que estaremos juntos, pois é querer ser dono demais do próprio destino, e brincar de Deus é um jogo que não me atrai.

Junto de sua asa delta, levou consigo outra parte de mim, e esta se chamava Esperança.

___

Deitei-me para contemplar o sol, com as mãos atrás da cabeça, imaginando como viria ao meu encontro o Terceiro Príncipe, que demorou a chegar e me fez cair num sono forte. Ao acordar, percebi que havia mais do que apenas eu na torre, pois sua respiração ofegante muito me chamava atenção.

– És uma cópia minha! – Gritei espantado para o Terceiro Príncipe, que era identicamente eu.

– Não sou tua cópia. Sou teu complemento, e trouxe comigo três importantes presentes para ti.

Após a pronúncia dessas palavras, o Terceiro Príncipe me beijou e desapareceu, como se eu o tivesse sugado. Olhei para contemplar seus presentes, e eis que descubro que havia uma corda para fugir da torre e dois pequenos potes: no primeiro pote havia Esperança, aquela mesma Esperança que o Segundo Príncipe havia roubado de mim. No segundo pote havia Confiança, aquela mesma Confiança que o Primeiro Príncipe tinha me levado.

Bebi o mel dos dois potes, enquanto a corda descia veloz pelo corpo da torre de mármore metade negra e metade branca.

Agradeci mentalmente pela vinda do meu salvador, o Terceiro, desejando que o Primeiro e o Segundo Príncipes pudessem um dia salvar alguém da solidão como eu fui salvo, pois de resposta eles teriam de volta um sentimento tão bom quanto o que eu estava sentindo naquele momento.

Levei meu corpo à borda da ponte, e finalmente pulei ao encontro de minha liberdade, a espera de compartilhá-la com alguém, pois dentro de mim explodia uma sensação tão boa e grande que seria egoísmo desfrutar disso sozinho.

Não obstante, a solidão aos poucos fazia papel de coadjuvante, pois dentro de mim havia outro eu, e juntos éramos um e dois.


FIM

Sobre Amar (ou Big Bang)

In Hmm on 09/14/2011 at 3:42 PM

Sim, eu amo. Eu te amo.

Amo tanto que por vezes me sinto estranho, perguntando a mim mesmo se isso que eu sinto é amor, me perguntando afinal que louca sensação é essa.

Sinto algo, como se fosse uma coisinha invisível, uma proteção, uma linha mágica que está sempre comigo, me circulando da hora que eu acordo até a chegada da noite, quando por fim descanso.

Descanso de te amar tanto, para que no dia seguinte eu acorde revigorado, para amar-te mais.

E então quando te vejo é que tudo muda, e essa coisa invisível e surreal toma forma e adquire tato, olfato, audição, visão. Adquire voz e pensamento. Adquire corpo, pele e sentimento.

O Amor então deixa de ser apenas uma força que nos observa, para então agir em nós assim que meu lábio encosta no teu.

É como se o chão desabasse sem que eu sentisse, como se eu perdesse o ar e, se realmente eu o perdesse, talvez passasse dias e dias vagando com meu espírito na Terra até que um dia eu enfim perceba que há tempos morri.

Teu beijo é tão mágico que um Big Bang eclode dentro de mim cada vez que um beijo teu me domina, morrendo apenas para dar início a outro Big Bang ainda maior quando me beija de novo, e de novo, e de novo. E cada beijo teu é um novo Big Bang, como se um Universo inteiro explodisse dentro de mim.

Eis quem há de julgar que sou bobo, e que você é um simples ser como os outros. Entretanto, bato forte no peito e levo minha defesa para onde vou, pois bobo é aquele que não se permitiu sentir aquilo que agora eu sinto.

Bobo é a forma inocente que eles arranjam para dizer “tenho inveja de você”.

Bobo é quem não acredita em Amor, como bobo um dia fui.

Mas eis que você apareceu, e me mostrou que o Amor existe, e que meu coração pode sim ser preenchido por algo mais que carne e sangue.

E que amar é algo infinitamente bom, tão bom como se carne e sangue fossem as coisas mais banais que um coração pode ter!

Sim, eu amo… Eu te amo.